domingo, 25 de fevereiro de 2018

OS HOMENS, A LÍNGUA E O CACHORRO– Tio Gerbúlio

A rua do bar tinha passado à rua de lazer e esportes nos feriados; nesses dias, muitas pessoas vinham de lugares vizinhos caminhar e passear. Numa manhã, dois rapazes incomuns por ali pararam no bar para tomar água. Vinham, pelo aspecto, já de uma boa caminhada. Um deles, que parecia o mais jovem, perguntou ao companheiro, olhando para rua:
                - Que têm essas pessoas que andam com pescoço duro e olhando para cima?
                - Nada.- disse o outro- Apenas andam olhando para o céu.
                - Só? - Retornou ainda inconformado.
                - Sim- continuou o que respondia- e também, às vezes, esquecem de olhar onde pisam.
                Os dois rapazes, que saíram logo, não iam longe quando, à porta do bar, um homem que puxava um cachorro pela corrente, escorregou numa casca de banana, esparramando-se pelo chão. O cachorro, que escapara com a corrente, solta pelo dono na hora da queda, ao invés de gozar a liberdade agora adquirida, correu a lamber o sangue que escorria dos braços do homem, ralados pelo asfalto.
                Do fundo do bar, um freguês que bebia atrás de umas caixas de bebida e cuja caninha parece ter-lhe afinado mais alguns dos sentidos, disse, devolvendo com força o copo vazio à mesa:
                - Que língua!
Tio Gerbúlio: Outras histórias

Elói Alves

domingo, 31 de dezembro de 2017

AS BARCAS


Fez-se última parada.
Aquela barca chegava ao final,
Não era a primeira vez,
Batia um frio,
Daqueles que dão na barriga,

Era certa indecisão,
Ou medo,
Medo pode ser que não fosse.

A sorte era não estar sozinho,
E se estivesse?

Era preciso desembarcar,
E continuar,
 De toda forma

Tudo de novo...
De novo?
Mas tudo podia ser novo

Nova barca
Novas paragens e paradas
Novas forças
 O caminhar para frente,
Sempre

O olhar é que se transforma,
Com os passos nem sempre iguais
No ir e vir dessas sucessivas barcas
Que se não deixam pará-las
Ignorando o nosso ritmo

E a disposição para viajar

Elói Alves

domingo, 22 de outubro de 2017

DIREITOS SEM DEVERES? - Perguntero

       No Brasil pós Ditadura de 64, com a Constituição atual, que se funda num Estado Democrático de Direito, muita gente, com pretenso conhecimento do Direito, por ideologia, ignorância ou malandragem recorre-se à palavra direito a todo momento que pretende se sair bem, esquecendo-se ou ignorando que a todo direito se corresponde um dever.
         Importante preguntar o que será desse próprio Estado e de seus habitantes se todos buscarem direitos e não cumprirem com suas obrigações? Será que continuará a existir? Será viável esse modelo de sociedade ou chegará a se desintegrar totalmente?

domingo, 8 de outubro de 2017

O LADRÃO COM CAGANEIRA – Histórias do Tio Gerbúlio

Um homem magro e alto, com chapéu na testa escondendo os olhos,  entrou no bar mansamente. Gerbúlio tinha ouvido um barulho de moto destrambelhada, mas só percebeu o homem quando já estava dentro do bar. “Tipo esquisito”, pensou.
 - Qual é a melhor bebida da casa? - perguntou o homem erguendo o pescoço para ver o que tinha atrás do balcão.
 - A que mais sai é a Batida do Vovô- disse Gerbulio, estudando o homem, que virou de lado, escondendo a cara, e foi sentar-se a um canto, de onde podia ver o resto do bar.
O bar, até então vazio, começou a encher de gente que vinha beber e assistir à partida de futebol. Tio Gerbúlio se sentiu melhor acompanhado, mas ainda assim ficou apreensivo sem poder calcular o desfecho da coisa.
Quando recebeu a batida, o homem de chapéu na cara mandou vir também uma porção de queijo.
 - No capricho – disse. O dono do bar quis avisá-lo que aquela mistura desarranjava o estômago quando percebeu que o homem estava armado.
 - Já trago! - disse e saiu discretamente.
De volta ao balcão, Gerbúlio lembrou-se de uma notícia de dias antes sobre um homem perigoso que fora solto pelo juiz, mesmo sem cumprir metade da pena, e que havia sido perdoado pelo governo, recebendo indulto.
 De repente todos ficaram pasmos diante do homem que se levantara feito um cangaceiro, rodando duas pistolas nas mãos, e gritou:
- Todos quietos! Senhores clientes, passem todo o dinheiro e podem ficar com a vida.
Todo mundo aceitou o negócio e logo começaram a fazer o que lhes cabia no acordo, enquanto o homem, agora com um saco em uma das mãos e segurando uma das pistolas na outra, fazia a coleta.
-O relógio também- disse ele a um fiscal da Receita que bebia com os amigos.
Subitamente, ouviu-se um barulho de explosão e algumas pessoas começaram a entrar em pânico.
- Quietos que foi só um peido! - disse o ladrão.
Realmente o meliante tinha peidado, mas não foi só isso. Quando foi guardar um bolo de dinheiro dentro das calças, viu que estava todo molhado.
- Que merda! – disse ele. - Estou todo borrado.
Logo houve outro barulho, mas dessa vez não parecia tiro e sim um caminhão com as rodas rodando num atoleiro.
- Desse jeito não trabalho! – protestou o bandido.
Então, largando o saco de dinheiro, dirigiu-se à porta, arrastando as pernas abertas, e, subindo na moto, partiu dali como um foguete.
 Um dos fregueses, que se levantou para acompanhar a fuga do ladrão, perguntou, tapando o nariz por causa da fumaça preta:
-Este barulho é da moto que peida ou do bandido que caga?
Elói Alves

Do livro Histórias do Tio Gerbúlio, Editora Essencial

Com ilustrações do artista plástico Carlos Eduardo Diniz




domingo, 9 de julho de 2017

A REPRESENTAÇÃO DA ESCOLA NA LITERATURA BRASILEIRA: A EDUCAÇÃO EM SÃO BERNARDO


"Liberdade completa ninguém desfruta: Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Pública e Social"
Graciliano Ramos



O governo tratou de organizar a educação de cima para baixo, mas sem envolver uma grande mobilização da sociedade.
B. Fausto


Todas as iniciativas da chamada reforma educacional realista, por exemplo a de Montessori, no fundo eram hostis à imaginação. Elas conduzem a uma aridez e até mesmo a um emburrecimento a que precisamos nos opor.
T. Adorno


Introdução.


Várias obras do escritor alagoano Graciliano Ramos têm sido importantes fontes para os estudos feitos por destacados pesquisadores que se inclinam a verificar como os mais destacados literatos brasileiros viram o Brasil a sua época. Assim, por exemplo, com O Brasil de Rosa, Luiz Roncari procura discutir algumas obras de Guimarães Rosa como sendo as de um intérprete do Brasil, de forma peculiar que apreciou os costumes da vida pública junto aos da vida privada e a gestação de seus paradigmas. Já Willi Bolle, em grandesertao.br, trabalha a obra prima de Rosa, Grande sertão: veredas, com sendo uma reescrita critica de Os sertões de Euclides da Cunha, escritor brasileiro que observou in loco o extermínio do povoado de Canudos, liderado por Antonio Maciel, o conselheiro, no final do século XIX. Nesse sentido, considerado por muitos como a obra prima de Graciliano, São Bernardo (1334) tem importância impar na interpretação do Brasil por volta da década de 1930. No estudo do retrato montado por Graciliano Ramos não se pode desprezar as questões históricas que caracterizam o país nas primeiras décadas de sua república, tampouco a economia, através das atividades que a alavancam, a apolítica ou outras questões sociais como partes da composição que dão, no romance, a ideia de totalidade. Aí, no interior desses aspectos, encontra-se também a educação, questão fundamental a este trabalho. Nela é importante notar como a escola é retratada na obra, quais o valor e função da educação que permeiam a obra, ou quais são eles, considerando-se olhares diversos dos personagens que se confrontam ao longo do romance, como o de Paulo Honório, proprietário da fazenda, à qual imprime um ritmo de produção violento e mantém uma relação de reificação com as pessoas que o cercam e o de sua mulher, professora com tendência a socialização dos lucros, ao revés da postura do marido. Ainda, dentro da noção de educação que se quer discutir na obra, é importante observar no quadro das personagens a figura de Padilha, o mestre-escola escolhido por Honório. A afirmação do latifundiário segundo a qual “o governador se contentaria se a escola produzisse alguns indivíduos capazes de tirar o titulo de eleitor” (p. 20) oferece já boa noção de como Paulo Honório trata o assunto. Para auxiliar e embasar melhor as discussões da obra de Graciliano acima será de relevante importância sua obra de cunho histórico e testemunhal, Memórias do cárcere, em que o autor relata aspectos importantes de sua passagem pelo cargo público de “diretor de instrução pública" (1933-1936). A propósito das questões acima, alguns textos que tratam do tema sobre educação são trazidos ao trabalho. Assim, “Educação para quê?” e outros, do livro Educação e emancipação, de Theodor Adorno, Revista de educação A E C (DEZ. DE 1996) são citados ipsis litteris. Também serão usados outros estudos sobre a obra de Graciliano, como Ficção e confissão de A. Cândido, o ensaio crítico “O mundo à revelia”, de Lafetá. Outros textos ou são referidos no corpo do trabalho ou o são na bibliografia na última página.




São Bernardo: o latifúndio e o lucro



Para mim São Bernardo era o lugar mais importante do mundo
Paulo Honório



Em São Bernardo, romance de Graciliano Ramos, escrito em 1933 e publicado em 1934, tem-se a representação do latifúndio peculiar e típico do Brasil à época das primeiras décadas da república brasileira. Superando o modelo de administração patriarcal e o sistema rudimentar de produção agrícola característico da monocultura de produção, utilizando já mão de obra assalariada com divisão regulada do trabalho e empregando um diversificado e pesado maquinário, o proprietário imprime um ritmo veloz e firme em seu sistema de produção destinada ao lucro, inserindo-se assim nos contextos do capitalismo de então.
Para o antigo proprietário que a herdara do pai, a fazenda só tinha valor sentimental. Tendo-a adquirido, Paulo Honório faz melhorias e investimentos diversos. Açude, pomar, criação de galinhas orpington, gados, o limosino, o Shuitz, pomicultura, avicultura, plantações de algodão e mamona, serraria, dínamo, pedreira, descaroçador, prensa, banheiro carrapaticida, telefone, eletricidade, casas para os empregados, automóvel, a estrada de rodagem construída sem ajuda do governo, igreja, gados, estradas asfaltadas etc. O sistema de produção é diversificado e todo seu mecanismo busca um enquadramento no sistema econômico cujo objetivo é o acumulo de capital, através de uma propriedade “regular”, num vocábulo recorrente de seu proprietário. Somados todos esses aspectos, pode-se, pois, antever um caráter simbólico de modernização encarnado pelo proprietário de São Bernardo. Não obstante, nesse modelo de proprietário há a figura do coronel regional, com votos contados para o partido, cercado de capangas e que decide até onde vai os limites de suas terras, onde fazer suas cercas, a quem destinar proteção e o que fazer com seus inimigos, que, deliberadamente, nada mais é que eliminá-los ou subjugá-los.


Considerações sobre Paulo Honório.

Paulo Honório é um homem de experiências brutas. Sua história é contada de um modo direto, sem voltas e sem remorsos, percebendo-se já em sua narrativa uma analogia de seu modo de agir com as pessoas e as coisas. No terceiro capitulo o narrador volta cinquenta anos na linha do tempo e relata por cima os acontecimentos que julga mais decisivos para que o leitor crie a imagem dele. A vida de misérias na infância, trabalhos forçados, negócios e violências no sertão, o crime que o deteve na cadeia por “três anos, nove meses e quinze dias”, onde aprendera a ler “na bíblia dos bodes”. “Sei lá como principiei!”- diz ele à mulher. "Quando dei por mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas da velha Margarida” (p.115). 
Embora alegue dificuldades e até fraquezas, Paulo Honório se mostra intrépido diante dos obstáculos, não temendo quaisquer perigos. Honório é a representação dos tempos novos que trazem a renovação, vencendo a estagnação de tipo vário, como econômica e técnica, e atropelando obstáculos. Em seu ensaio “O MUNDO À REVELIA” ( (pós-fácio edição Record, 51 edição) joão Luiz Lafetá escreve: “Paulo Honório, representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente (sublinhado meu), dinâmico e transformador.” Ora, é essa a impressão mais forte que se pode extrair do caráter de Honório, das ações que vão dando ideia da composição desse ethos. Assim, vai-se deflagrar a postura reificadora dele para com as demais pessoas de sua convivência e com ela sua perspectiva nas relações humanas e, por conseqüência, nas questões sociais como a educação.

Considerações sobre Madalena. 

Madalena surge, no romance, no momento em que a posse de São Bernardo está totalmente concluída e sua engrenagem em pleno funcionamento. Professora de “primeira entrância”, vinda da “escola normal”, Madalena fora criada pela tia enfrentando dificuldades e privações. Após uma das brigas, relata parte de sua história, como peça de defesa da tia: “Morávamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita, d. Glória sentava-se num caixão de querosene. A saleta de jantar era meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se à parede. Trabalhei ali muitos anos. À noite baixava a luz do candeeiro, por economia. D. Gloria ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se. O hábito que ela tem de cochichar vem desse tempo. Dormíamos as duas numa cama estreita. Se eu adoecia, d. Glória passava a noite sentada; quando não aguentava de sono, deitava-se no chão” (p. 116). Sua primeira menção no romance vem a propósito de uma conversa de homens ociosos: “No outro dia, de volta do campo encontrei no alpendre João Nogueira, Padilha e Azevedo Gondim elogia umas pernas e uns peitos” (45). A formação de Madalena, sua visão de mundo, seu modo de se relacionar com os outros, o oficio de escrever para o jornal, não tendo espaço em primeiro plano, vão depois ser rechaçados por completo.


A origem da escola


O primeiro aspecto sobre a escola em São Bernardo que se torna chamativo é o que a aponta como uma instituição tardia que não acompanha o desenvolvimento de nenhuma outra atividade da fazenda. Parece algo despropositado. Alíás, pelo modo de ver de Paulo Honório, ela é mesmo algo arbitrário para a fazenda, e o é, a efeito, pelo sentido que lhe atribui. Sua necessidade e sua exigência só são sentidas por ocasião da visita do governador: “O governador gostou do pomar, das galinhas Orpington, do algodão e da mamona, achou conveniente o gado limosino, pediu-me fotografias e perguntou onde ficava a escola. Respondi que não ficava em parte nenhuma” (sublinhado meu) (p. 43). Seu surgimento, embora necessário, mostra bastante algo de adventício, desvinculando-se de tudo mais nos termos da propriedade. Além do que essa necessidade é sentida por alguém que vem de fora, sem uma profunda legitimação do poder interno, o que a confirma como algo desprivilegiado ali.
As razões da negligência com a existência da escola são percebidas no fluxo de consciência, visto através da narrativa. “No almoço que teve champanhe, o dr. Magalhães gemeu um discurso. S. exa. tornou a falar na escola. Tive vontade de dar uns apartes, mas contive-me”.
“Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos” (sublinhado meu) (p.44). No entanto, a razão mais contundente desse modo de enfrentar essa questão só se esclarece à luz de uma ideia rentável. "Fui mostrar ao ilustre hóspede a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar” (sublinhado meu) “. -Pois sim senhor. Quando v. exa. Vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha.” (p.44). 

A propósito desse assunto, a “invenção de um espaço de ensino”, vem abaixo um excerto da professora Magda Soares:

"A diferença fundamental entre o aprendizado corporativo medieval e o aprendizado escolar que se difundiu no mundo ocidental a partir sobretudo do século XVI foi, segundo Petitat, “uma revolução do espaço de ensino, pela substituição dos locais dispersos mantidos por professores ‘independentes’ por um prédio único abrigando várias salas de aula’; como consequência e exigência dessa invenção de um espaço de ensino, uma outra “invenção” surge: um tempo de ensino – “uma vez os alunos encerrados num grande espaço, a ideia de sistematizar o seu tempo iria se desenvolver”, ideia que se materializou não apenas numa organização e planejamento das atividades, mas estendeu-se ao próprio conhecimento a ser ensinado e aprendido. “resultando numa gradação sistemática e numa divisão correspondente das matérias” (Petitat, 1992:144). É assim que surgem os graus escolares, as séries, as classes, o curriculum, as matérias e disciplinas, os programas, em fim, aquilo que constitui até hoje a essência da escola. (REVISTA DE EDUCAÇÃO AEC, out/ dez. de1996, p. 9-10)


O caráter histórico das transformações do espaço escolar apontado no excerto acima aparece apenas em parte na escola que aparece no romance. Devido a sua inserção no tempo histórico e também a noção de totalidade dentro da necessidade de uma propriedade moderna, a escola tende a cumprir alguma especificidade. Não obstante as definições de local, isto é, o espaço de ensino, a disciplina escolar dada, ou, nas palavras de Honório, a “cartilha” etc, a dívida diante das exigências educacionais são grandes e mesmo insuperáveis, devido exatamente ao espírito conceitual que lhe dá origem. “__ Esses homens do governo têm um parafuso frouxo. Metam pessoal letrado na apanha da mamona. Hão de ver a colheita” (p.44), afirma o proprietário de São Bernardo. 
O estatuto da escola da fazenda só pode ser lido a partir de um conhecimento prévio do ethos ou do tipo de homem que é Paulo Honório, seu fundador e proprietário. Centralizador e autoritário busca uma racionalização máxima de todas as atividades em suas terras. A primeira conversa dele com a professora que seria sua esposa parece bastante ilustradora das diferenças de concepção de mundo e, conseqüentemente, como ambos veem o homem. “Na estação d. Glória apresentou-me a sobrinha, que tinha ido recebê-la. Atrapalhei-me (...)”  __ D. Marcela disse-me que o senhor tem uma propriedade bonita, começou Madalena”. “__ Bonita? Ainda não reparei. Talvez seja bonita. O que sei é que é uma propriedade regular” (p.81).
A racionalização típica do sistema de produção “regular” que se busca ali implica também o modo de tratamento destinado aos homens. Neste ponto parece adequado notar o sentimento que Honório nutre em relação ao que há no mundo. Antonio Candido vê nisto uma patogênese:

“Paulo Honório, por sua vez, é a modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese desse sentimento. De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pisando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios” (Ficção e confissão, Ensaios sobre a obra de Graciliano ramos, p. 25-26).

Essa postura, esse modus vivendi, em modelo acabado, transforma-se numa ética humanamente bastante cruel que é, em essência, uma postura reificadora, que busca a transformação de pessoas em coisas. O fragmento abaixo mostra bem esse comportamento do fazendeiro:

“Uma tarde subi à torre da igreja e fui ver Marciano procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e à noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente. Eu desejava assistir à extinção daquelas aves amaldiçoadas. (..) Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não era mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade os envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena consideração” (p. 156).

É interessante pensar como esse comportamento tão desprovido de sensibilidade se aflora quando o assunto exige um olhar voltado para a qualidade da vida das pessoas, como é o caso da educação. Um dia depois da visita do governador o mestre-escola já está escolhido. A propósito do assunto as opiniões vão se perfilando. “__ Magnífico! Exclamou Azevedo Gondim com um sorriso que lhe achatou mais o nariz. Aceitou o meu conselho, hem? Não há nada como a instrução”. João Nogueira, advogado da fazenda, “passou os dedos pela testa e pressagiou, distraído, que a escola teria grande utilidade” (p. 48). De pronto, encolhendo os ombros, Paulo Honório dá as explicações:
“__Sei lá! Não acredito Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Está claro que se poderia arranjar uma boa escola rural, com ensino razoável de agricultura e pecuária. Mas onde vou encontrar técnicos? E que dinheirão! Por enquanto é apenas um bocado de leitura, escrita e conta. Você estará em condições de encarregar-se disso, Padilha?” (p.48).
Herdeiro de São Bernardo, Padilha endividou-se e acabou vendendo a propriedade. Agora escrevia alguns contos, de que se envergonhava, para o Cruzeiro, jornal de Gondim, situacionista financiado pelo governo. Para Honório Padilha era apenas um “preguiçoso” a quem queria envergonhar. Aqui tem-se o mestre escola escolhido. Um professor em quem o próprio dono da escola não vê qualidades para o cargo. Sua escolha nada mostra senão a própria maneira de Paulo Honório enfrentar a questão da educação. No limite, já está presente o comprometimento do tipo de ensino que se vai ministrar, devido justamente a uma escolha de cunho autoritário da educação dos outros, como diz o trecho seguinte de Theodor Adorno.

Em relação a esta questão, gostaria apenas de atentar a um momento especifico no conceito de modelo ideal, o da heteronomia, o momento autoritário, o que é imposto a partir do exterior. Nele existe algo de usurpatório. É de se perguntar de onde alguém se considera no direito de decidir a respeito da orientação da educação dos outros. As condições provenientes do mesmo plano de linguagem e de pensamento ou de não-pensamento_ em geral também correspondem a este modo de pensar. Encontram-se em contradição com a idéia de um homem autônomo, emancipado, conforme a formulação definitiva de Kant na exigência de que os homens tenham que se libertar de sua auto-inculpável menoridade ( Educação e emancipação, p.141).

Padilha de fato não é nenhum entusiasta da causa da educação. A primeira e única coisa pela qual perguntou foi a remuneração. “Luiz Padilha informou-se do ordenado e declarou que vivia cheio de ocupações” (48). Acaba ficando, por não ter o que fazer. Aqui, toca-se no, por assim dizer, calcanhar de Aquiles da profissão, que é a questão salarial. Madalena recebia como professora de “primeira entrância” um salário de cento e oitenta mil (180 000) reis. Mestre Caetano que trabalhava quebrando pedras na fazenda recebia mais de três vezes a mais, exatamente seiscentos mil (600 000). Paulo Honório informando-se do ordenado da professora responde em tom de despropósito. “Criem Galinhas!” Para quem todas as atividades se reduzem ao lucro, não há sentido numa profissão dessas.
A ruptura decisiva entre a professora e fazendeiro se dá exatamente quando decidem se unir nos laços estreitos do casamento. O modo de ser simples e humanitário de Madalena nada tem a ver com o de seu marido. No fundo ela tinha grande compaixão pelas pessoas que trabalhavam e moravam na fazenda. O Lado humano e ao mesmo tempo o desespero de Madalena aparecem durante o espancamento de Marciano por Paulo Honório: “É horrível Bradou Madalena (...) __ Ah! Sim! Por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa séria. Assustou- me.” Diz Honório.”
Nos termos de suas terras, Paulo Honório nunca vê o homem, o ser humana em sua essência.Logo todo o tratamento que lhe dirige é ipso facto autoritário. Não poderia, assim, existir ali uma educação voltada para aspectos de valorização da vida em seus meios mais elementares. Um tipo de educação nesses termos tem sido uma carência dos tempos modernos. Nesse sentido a obra de Graciliano é tanto verossímil como uma obra histórica. Tanto no âmbito federal, com o regime de Vargas por quem Gracilino fora preso, como regionalmente, o século vinte foi infelizmente uma época de opressão ao homem e à educação e cultura. O professor Francisco Monforte, ex-ministro da cultura fala baixo sobre esse aspecto;

“Se no universo da cultura o centro está em toda parte, o centro da cultura é o homem. (...) uma inspiração humanística e democrática. Mas creio que as relações entre educação em cultura vem sendo empobrecidas, por uma visão supostamente moderna”( Guia de cultura da Univerdidade de São Paulo, maio de 2007, p.16).

É exatamente este aspecto que afasta educação e cultura em função de algo pretensamente objetivo ou funcional, sendo um importante mecanismo que emperra o aspecto humano tão fundamental em educação.
Elói Alves

sábado, 6 de maio de 2017

O BRASIL SERÁ VIÁVEL COM SEUS POLÍITCOS VICIADOS - Perguntero


Será que algum dia o Brasil andará para frente tendo como líderes os políticos doentes que roubam sempre mais e administram sempre para si mesmos, aumentando sempre mais a conta paga pelo povo ridicularizado por eles?
Será que o problema do gasto público resolve-se com o trabalhador pagando impostos por mais tempo e recebendo menos ou na má gestão dos políticos viciados e corruptos que desviam boa parte do dinheiro dos impostos?

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