domingo, 9 de julho de 2017

A REPRESENTAÇÃO DA ESCOLA NA LITERATURA BRASILEIRA: A EDUCAÇÃO EM SÃO BERNARDO


"Liberdade completa ninguém desfruta: Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Pública e Social"
Graciliano Ramos



O governo tratou de organizar a educação de cima para baixo, mas sem envolver uma grande mobilização da sociedade.
B. Fausto


Todas as iniciativas da chamada reforma educacional realista, por exemplo a de Montessori, no fundo eram hostis à imaginação. Elas conduzem a uma aridez e até mesmo a um emburrecimento a que precisamos nos opor.
T. Adorno


Introdução.


Várias obras do escritor alagoano Graciliano Ramos têm sido importantes fontes para os estudos feitos por destacados pesquisadores que se inclinam a verificar como os mais destacados literatos brasileiros viram o Brasil a sua época. Assim, por exemplo, com O Brasil de Rosa, Luiz Roncari procura discutir algumas obras de Guimarães Rosa como sendo as de um intérprete do Brasil, de forma peculiar que apreciou os costumes da vida pública junto aos da vida privada e a gestação de seus paradigmas. Já Willi Bolle, em grandesertao.br, trabalha a obra prima de Rosa, Grande sertão: veredas, com sendo uma reescrita critica de Os sertões de Euclides da Cunha, escritor brasileiro que observou in loco o extermínio do povoado de Canudos, liderado por Antonio Maciel, o conselheiro, no final do século XIX. Nesse sentido, considerado por muitos como a obra prima de Graciliano, São Bernardo (1334) tem importância impar na interpretação do Brasil por volta da década de 1930. No estudo do retrato montado por Graciliano Ramos não se pode desprezar as questões históricas que caracterizam o país nas primeiras décadas de sua república, tampouco a economia, através das atividades que a alavancam, a apolítica ou outras questões sociais como partes da composição que dão, no romance, a ideia de totalidade. Aí, no interior desses aspectos, encontra-se também a educação, questão fundamental a este trabalho. Nela é importante notar como a escola é retratada na obra, quais o valor e função da educação que permeiam a obra, ou quais são eles, considerando-se olhares diversos dos personagens que se confrontam ao longo do romance, como o de Paulo Honório, proprietário da fazenda, à qual imprime um ritmo de produção violento e mantém uma relação de reificação com as pessoas que o cercam e o de sua mulher, professora com tendência a socialização dos lucros, ao revés da postura do marido. Ainda, dentro da noção de educação que se quer discutir na obra, é importante observar no quadro das personagens a figura de Padilha, o mestre-escola escolhido por Honório. A afirmação do latifundiário segundo a qual “o governador se contentaria se a escola produzisse alguns indivíduos capazes de tirar o titulo de eleitor” (p. 20) oferece já boa noção de como Paulo Honório trata o assunto. Para auxiliar e embasar melhor as discussões da obra de Graciliano acima será de relevante importância sua obra de cunho histórico e testemunhal, Memórias do cárcere, em que o autor relata aspectos importantes de sua passagem pelo cargo público de “diretor de instrução pública" (1933-1936). A propósito das questões acima, alguns textos que tratam do tema sobre educação são trazidos ao trabalho. Assim, “Educação para quê?” e outros, do livro Educação e emancipação, de Theodor Adorno, Revista de educação A E C (DEZ. DE 1996) são citados ipsis litteris. Também serão usados outros estudos sobre a obra de Graciliano, como Ficção e confissão de A. Cândido, o ensaio crítico “O mundo à revelia”, de Lafetá. Outros textos ou são referidos no corpo do trabalho ou o são na bibliografia na última página.




São Bernardo: o latifúndio e o lucro



Para mim São Bernardo era o lugar mais importante do mundo
Paulo Honório



Em São Bernardo, romance de Graciliano Ramos, escrito em 1933 e publicado em 1934, tem-se a representação do latifúndio peculiar e típico do Brasil à época das primeiras décadas da república brasileira. Superando o modelo de administração patriarcal e o sistema rudimentar de produção agrícola característico da monocultura de produção, utilizando já mão de obra assalariada com divisão regulada do trabalho e empregando um diversificado e pesado maquinário, o proprietário imprime um ritmo veloz e firme em seu sistema de produção destinada ao lucro, inserindo-se assim nos contextos do capitalismo de então.
Para o antigo proprietário que a herdara do pai, a fazenda só tinha valor sentimental. Tendo-a adquirido, Paulo Honório faz melhorias e investimentos diversos. Açude, pomar, criação de galinhas orpington, gados, o limosino, o Shuitz, pomicultura, avicultura, plantações de algodão e mamona, serraria, dínamo, pedreira, descaroçador, prensa, banheiro carrapaticida, telefone, eletricidade, casas para os empregados, automóvel, a estrada de rodagem construída sem ajuda do governo, igreja, gados, estradas asfaltadas etc. O sistema de produção é diversificado e todo seu mecanismo busca um enquadramento no sistema econômico cujo objetivo é o acumulo de capital, através de uma propriedade “regular”, num vocábulo recorrente de seu proprietário. Somados todos esses aspectos, pode-se, pois, antever um caráter simbólico de modernização encarnado pelo proprietário de São Bernardo. Não obstante, nesse modelo de proprietário há a figura do coronel regional, com votos contados para o partido, cercado de capangas e que decide até onde vai os limites de suas terras, onde fazer suas cercas, a quem destinar proteção e o que fazer com seus inimigos, que, deliberadamente, nada mais é que eliminá-los ou subjugá-los.


Considerações sobre Paulo Honório.

Paulo Honório é um homem de experiências brutas. Sua história é contada de um modo direto, sem voltas e sem remorsos, percebendo-se já em sua narrativa uma analogia de seu modo de agir com as pessoas e as coisas. No terceiro capitulo o narrador volta cinquenta anos na linha do tempo e relata por cima os acontecimentos que julga mais decisivos para que o leitor crie a imagem dele. A vida de misérias na infância, trabalhos forçados, negócios e violências no sertão, o crime que o deteve na cadeia por “três anos, nove meses e quinze dias”, onde aprendera a ler “na bíblia dos bodes”. “Sei lá como principiei!”- diz ele à mulher. "Quando dei por mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas da velha Margarida” (p.115). 
Embora alegue dificuldades e até fraquezas, Paulo Honório se mostra intrépido diante dos obstáculos, não temendo quaisquer perigos. Honório é a representação dos tempos novos que trazem a renovação, vencendo a estagnação de tipo vário, como econômica e técnica, e atropelando obstáculos. Em seu ensaio “O MUNDO À REVELIA” ( (pós-fácio edição Record, 51 edição) joão Luiz Lafetá escreve: “Paulo Honório, representante da modernidade que entra no sertão brasileiro, é o emblema complexo e contraditório do capitalismo nascente, empreendedor, cruel, que não vacila diante dos meios e se apossa do que tem pela frente (sublinhado meu), dinâmico e transformador.” Ora, é essa a impressão mais forte que se pode extrair do caráter de Honório, das ações que vão dando ideia da composição desse ethos. Assim, vai-se deflagrar a postura reificadora dele para com as demais pessoas de sua convivência e com ela sua perspectiva nas relações humanas e, por conseqüência, nas questões sociais como a educação.

Considerações sobre Madalena. 

Madalena surge, no romance, no momento em que a posse de São Bernardo está totalmente concluída e sua engrenagem em pleno funcionamento. Professora de “primeira entrância”, vinda da “escola normal”, Madalena fora criada pela tia enfrentando dificuldades e privações. Após uma das brigas, relata parte de sua história, como peça de defesa da tia: “Morávamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita, d. Glória sentava-se num caixão de querosene. A saleta de jantar era meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se à parede. Trabalhei ali muitos anos. À noite baixava a luz do candeeiro, por economia. D. Gloria ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se. O hábito que ela tem de cochichar vem desse tempo. Dormíamos as duas numa cama estreita. Se eu adoecia, d. Glória passava a noite sentada; quando não aguentava de sono, deitava-se no chão” (p. 116). Sua primeira menção no romance vem a propósito de uma conversa de homens ociosos: “No outro dia, de volta do campo encontrei no alpendre João Nogueira, Padilha e Azevedo Gondim elogia umas pernas e uns peitos” (45). A formação de Madalena, sua visão de mundo, seu modo de se relacionar com os outros, o oficio de escrever para o jornal, não tendo espaço em primeiro plano, vão depois ser rechaçados por completo.


A origem da escola


O primeiro aspecto sobre a escola em São Bernardo que se torna chamativo é o que a aponta como uma instituição tardia que não acompanha o desenvolvimento de nenhuma outra atividade da fazenda. Parece algo despropositado. Alíás, pelo modo de ver de Paulo Honório, ela é mesmo algo arbitrário para a fazenda, e o é, a efeito, pelo sentido que lhe atribui. Sua necessidade e sua exigência só são sentidas por ocasião da visita do governador: “O governador gostou do pomar, das galinhas Orpington, do algodão e da mamona, achou conveniente o gado limosino, pediu-me fotografias e perguntou onde ficava a escola. Respondi que não ficava em parte nenhuma” (sublinhado meu) (p. 43). Seu surgimento, embora necessário, mostra bastante algo de adventício, desvinculando-se de tudo mais nos termos da propriedade. Além do que essa necessidade é sentida por alguém que vem de fora, sem uma profunda legitimação do poder interno, o que a confirma como algo desprivilegiado ali.
As razões da negligência com a existência da escola são percebidas no fluxo de consciência, visto através da narrativa. “No almoço que teve champanhe, o dr. Magalhães gemeu um discurso. S. exa. tornou a falar na escola. Tive vontade de dar uns apartes, mas contive-me”.
“Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos” (sublinhado meu) (p.44). No entanto, a razão mais contundente desse modo de enfrentar essa questão só se esclarece à luz de uma ideia rentável. "Fui mostrar ao ilustre hóspede a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar” (sublinhado meu) “. -Pois sim senhor. Quando v. exa. Vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha.” (p.44). 

A propósito desse assunto, a “invenção de um espaço de ensino”, vem abaixo um excerto da professora Magda Soares:

"A diferença fundamental entre o aprendizado corporativo medieval e o aprendizado escolar que se difundiu no mundo ocidental a partir sobretudo do século XVI foi, segundo Petitat, “uma revolução do espaço de ensino, pela substituição dos locais dispersos mantidos por professores ‘independentes’ por um prédio único abrigando várias salas de aula’; como consequência e exigência dessa invenção de um espaço de ensino, uma outra “invenção” surge: um tempo de ensino – “uma vez os alunos encerrados num grande espaço, a ideia de sistematizar o seu tempo iria se desenvolver”, ideia que se materializou não apenas numa organização e planejamento das atividades, mas estendeu-se ao próprio conhecimento a ser ensinado e aprendido. “resultando numa gradação sistemática e numa divisão correspondente das matérias” (Petitat, 1992:144). É assim que surgem os graus escolares, as séries, as classes, o curriculum, as matérias e disciplinas, os programas, em fim, aquilo que constitui até hoje a essência da escola. (REVISTA DE EDUCAÇÃO AEC, out/ dez. de1996, p. 9-10)


O caráter histórico das transformações do espaço escolar apontado no excerto acima aparece apenas em parte na escola que aparece no romance. Devido a sua inserção no tempo histórico e também a noção de totalidade dentro da necessidade de uma propriedade moderna, a escola tende a cumprir alguma especificidade. Não obstante as definições de local, isto é, o espaço de ensino, a disciplina escolar dada, ou, nas palavras de Honório, a “cartilha” etc, a dívida diante das exigências educacionais são grandes e mesmo insuperáveis, devido exatamente ao espírito conceitual que lhe dá origem. “__ Esses homens do governo têm um parafuso frouxo. Metam pessoal letrado na apanha da mamona. Hão de ver a colheita” (p.44), afirma o proprietário de São Bernardo. 
O estatuto da escola da fazenda só pode ser lido a partir de um conhecimento prévio do ethos ou do tipo de homem que é Paulo Honório, seu fundador e proprietário. Centralizador e autoritário busca uma racionalização máxima de todas as atividades em suas terras. A primeira conversa dele com a professora que seria sua esposa parece bastante ilustradora das diferenças de concepção de mundo e, conseqüentemente, como ambos veem o homem. “Na estação d. Glória apresentou-me a sobrinha, que tinha ido recebê-la. Atrapalhei-me (...)”  __ D. Marcela disse-me que o senhor tem uma propriedade bonita, começou Madalena”. “__ Bonita? Ainda não reparei. Talvez seja bonita. O que sei é que é uma propriedade regular” (p.81).
A racionalização típica do sistema de produção “regular” que se busca ali implica também o modo de tratamento destinado aos homens. Neste ponto parece adequado notar o sentimento que Honório nutre em relação ao que há no mundo. Antonio Candido vê nisto uma patogênese:

“Paulo Honório, por sua vez, é a modalidade duma força que o transcende e em função da qual vive: o sentimento de propriedade. E o romance é, mais que um estudo analítico, verdadeira patogênese desse sentimento. De guia de cego, filho de pais incógnitos, criado pela preta Margarida, Paulo Honório se elevou a grande fazendeiro, respeitado e temido, graças à tenacidade infatigável com que manobrou a vida, pisando escrúpulos e visando o alvo por todos os meios” (Ficção e confissão, Ensaios sobre a obra de Graciliano ramos, p. 25-26).

Essa postura, esse modus vivendi, em modelo acabado, transforma-se numa ética humanamente bastante cruel que é, em essência, uma postura reificadora, que busca a transformação de pessoas em coisas. O fragmento abaixo mostra bem esse comportamento do fazendeiro:

“Uma tarde subi à torre da igreja e fui ver Marciano procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e à noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente. Eu desejava assistir à extinção daquelas aves amaldiçoadas. (..) Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não era mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade os envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena consideração” (p. 156).

É interessante pensar como esse comportamento tão desprovido de sensibilidade se aflora quando o assunto exige um olhar voltado para a qualidade da vida das pessoas, como é o caso da educação. Um dia depois da visita do governador o mestre-escola já está escolhido. A propósito do assunto as opiniões vão se perfilando. “__ Magnífico! Exclamou Azevedo Gondim com um sorriso que lhe achatou mais o nariz. Aceitou o meu conselho, hem? Não há nada como a instrução”. João Nogueira, advogado da fazenda, “passou os dedos pela testa e pressagiou, distraído, que a escola teria grande utilidade” (p. 48). De pronto, encolhendo os ombros, Paulo Honório dá as explicações:
“__Sei lá! Não acredito Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Está claro que se poderia arranjar uma boa escola rural, com ensino razoável de agricultura e pecuária. Mas onde vou encontrar técnicos? E que dinheirão! Por enquanto é apenas um bocado de leitura, escrita e conta. Você estará em condições de encarregar-se disso, Padilha?” (p.48).
Herdeiro de São Bernardo, Padilha endividou-se e acabou vendendo a propriedade. Agora escrevia alguns contos, de que se envergonhava, para o Cruzeiro, jornal de Gondim, situacionista financiado pelo governo. Para Honório Padilha era apenas um “preguiçoso” a quem queria envergonhar. Aqui tem-se o mestre escola escolhido. Um professor em quem o próprio dono da escola não vê qualidades para o cargo. Sua escolha nada mostra senão a própria maneira de Paulo Honório enfrentar a questão da educação. No limite, já está presente o comprometimento do tipo de ensino que se vai ministrar, devido justamente a uma escolha de cunho autoritário da educação dos outros, como diz o trecho seguinte de Theodor Adorno.

Em relação a esta questão, gostaria apenas de atentar a um momento especifico no conceito de modelo ideal, o da heteronomia, o momento autoritário, o que é imposto a partir do exterior. Nele existe algo de usurpatório. É de se perguntar de onde alguém se considera no direito de decidir a respeito da orientação da educação dos outros. As condições provenientes do mesmo plano de linguagem e de pensamento ou de não-pensamento_ em geral também correspondem a este modo de pensar. Encontram-se em contradição com a idéia de um homem autônomo, emancipado, conforme a formulação definitiva de Kant na exigência de que os homens tenham que se libertar de sua auto-inculpável menoridade ( Educação e emancipação, p.141).

Padilha de fato não é nenhum entusiasta da causa da educação. A primeira e única coisa pela qual perguntou foi a remuneração. “Luiz Padilha informou-se do ordenado e declarou que vivia cheio de ocupações” (48). Acaba ficando, por não ter o que fazer. Aqui, toca-se no, por assim dizer, calcanhar de Aquiles da profissão, que é a questão salarial. Madalena recebia como professora de “primeira entrância” um salário de cento e oitenta mil (180 000) reis. Mestre Caetano que trabalhava quebrando pedras na fazenda recebia mais de três vezes a mais, exatamente seiscentos mil (600 000). Paulo Honório informando-se do ordenado da professora responde em tom de despropósito. “Criem Galinhas!” Para quem todas as atividades se reduzem ao lucro, não há sentido numa profissão dessas.
A ruptura decisiva entre a professora e fazendeiro se dá exatamente quando decidem se unir nos laços estreitos do casamento. O modo de ser simples e humanitário de Madalena nada tem a ver com o de seu marido. No fundo ela tinha grande compaixão pelas pessoas que trabalhavam e moravam na fazenda. O Lado humano e ao mesmo tempo o desespero de Madalena aparecem durante o espancamento de Marciano por Paulo Honório: “É horrível Bradou Madalena (...) __ Ah! Sim! Por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa séria. Assustou- me.” Diz Honório.”
Nos termos de suas terras, Paulo Honório nunca vê o homem, o ser humana em sua essência.Logo todo o tratamento que lhe dirige é ipso facto autoritário. Não poderia, assim, existir ali uma educação voltada para aspectos de valorização da vida em seus meios mais elementares. Um tipo de educação nesses termos tem sido uma carência dos tempos modernos. Nesse sentido a obra de Graciliano é tanto verossímil como uma obra histórica. Tanto no âmbito federal, com o regime de Vargas por quem Gracilino fora preso, como regionalmente, o século vinte foi infelizmente uma época de opressão ao homem e à educação e cultura. O professor Francisco Monforte, ex-ministro da cultura fala baixo sobre esse aspecto;

“Se no universo da cultura o centro está em toda parte, o centro da cultura é o homem. (...) uma inspiração humanística e democrática. Mas creio que as relações entre educação em cultura vem sendo empobrecidas, por uma visão supostamente moderna”( Guia de cultura da Univerdidade de São Paulo, maio de 2007, p.16).

É exatamente este aspecto que afasta educação e cultura em função de algo pretensamente objetivo ou funcional, sendo um importante mecanismo que emperra o aspecto humano tão fundamental em educação.
Elói Alves

sábado, 6 de maio de 2017

O BRASIL SERÁ VIÁVEL COM SEUS POLÍITCOS VICIADOS - Perguntero


Será que algum dia o Brasil andará para frente tendo como líderes os políticos doentes que roubam sempre mais e administram sempre para si mesmos, aumentando sempre mais a conta paga pelo povo ridicularizado por eles?
Será que o problema do gasto público resolve-se com o trabalhador pagando impostos por mais tempo e recebendo menos ou na má gestão dos políticos viciados e corruptos que desviam boa parte do dinheiro dos impostos?

sábado, 1 de abril de 2017

QUESTÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS APONTADAS NO LIVRO “DEZOITO BRUMÁRIO DE LUÍS BONAPARTE”.


 (O texto a seguir é de autoria do historiador e professor Jomar Souza)



                      “Que os meus ideais sejam tanto mais fortes quanto maiores forem os desafios, mesmo que precise transpor obstáculos aparentemente intransponíveis. Porque metade de mim é feita de sonhos e a outra metade é de lutas.” Vladimir Maiakóvski.



           

PARTE I



O texto, encomendado por um jornal americano interessado pelos acontecimentos de então, na Europa, não tirou de Marx a preocupação em manter o rigor teórico, marca que o perseguiu por toda a sua trajetória intelectual-militante, reconhecida até pelos adversários mais duros como Max Weber.  Ali aparece, junto à forma jornalística, uma imensa argúcia analítica, fazendo do seu Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, um libelo digno de admiração também pela estética, que combina a ironia mordaz com certa elegância inspirada em leituras de gigantes da cultura alemã como Heine e Goeth. O livro confirma o perfil polemista que desde a juventude usou como estratégia para dialogar com obras de titãs como Kant, Aristóteles, Hegel e os coadjuvantes do idealismo alemão, pertencentes à “esquerda hegeliana”, destacando o mais proeminente dentre eles, Ludwig Feuerbach.  



Esse escrito elaborado durante o exílio em Londres, entre os meses de janeiro e março de 1852, ou seja, na sequência imediata ao “coup d‟ État” em 2 de dezembro 1851, apresenta um Marx maduro, capaz de usar todo seu arcabouço teórico materialista-dialético para compreender e explicar os acontecimentos políticos e conjunturais da Europa e, em particular, da França. 

                Marx acompanhou com grande interesse, através de livros, jornais e informes de camaradas da Liga Comunista, a história da luta de classe na França, desde a Grande Revolução de 1789, passando pelos acontecimentos de 1848-1851, até a Comuna de Paris em 1871, a qual chamou de um “Assalto ao céu” pelo proletariado parisiense.  Se não bastasse tudo isto, Marx ainda respirava os frescores da Revolução Francesa, pois esse acontecimento não tinha mais que vinte nove anos quando do seu nascimento em 1818. 



É preciso antes de avançar nos comentários da própria obra, acrescentar que o Marx de 1852, embora arguto, irônico, dono do arcabouço do método do materialismo histórico-dialético, que já dera passos importantes para compreender a base material da sociedade capitalista, ainda não tinha pleno domínio sobre os elementos mais estruturais e fundantes da ordem burguesa, coisa que iria acontecer poucos anos depois no exílio londrino. Será a partir desse período que os resultados mais fecundos da pesquisa na área da teoria econômica virão à tona. Textos como Grundrisse e Contribuição para Uma Crítica da Economia Política, ambos elaborados em 1858, traziam muito do que foi mais tarde exposto em O Capital, lançado em 1867. 



 

Agora, voltando ao “Dezoito Brumário”, Marx abre seu texto com a paráfrase de Hegel: a repetição na história só ocorre duas vezes, a primeira enquanto versão trágica e a segunda, pela imposição farsante: O le grand de 1804 pour le petit de 1851!

                O texto é uma análise refinada da conjuntura para entender o porquê do fracasso da Revolução de Fevereiro de 1848 e como, em lugar de afirmar seu objetivo inicial, a república, resultou necessariamente em um governo de “tipo” novo, o qual Marx conceituará de BONAPARTISMO. Diferente daquilo que alguns analistas alemães contemporâneos de Marx nominavam de cesarismo, o Bonapartismo é essencialmente resultado da luta de classe em determinadas conjunturas da sociedade burguesa.  A proeza analítica de Marx leva a antecipar tal conclusão, confirmada pelos fatos que redundaram na restauração de novembro de 1852, criando o Segundo Império, guiado pela farsa napoleônica. 



O artigo começa pela apreensão primorosa da estrutura das classes sociais francesa após a revolução de 1789. Diferente da análise empreendida em O Capital, em que, por razões metodológicas, tem que abstrair as diferentes classes, para ater-se apenas em expor a contradição fundante entre o capital e o trabalho, edificada na relação antinômica da burguesia e o proletariado, no “Dezoito”, o percurso analítico parte da realidade concreta para compreender a situação concreta da Revolução de Fevereiro de 1848, a qual foi parida pela divergência entre interesses econômicos e políticos das cinco classes em movimento de disputa. Os conflitos trazidos à luz pela burguesia, nobreza, pequena-burguesia, campesinato e proletariado ditaram os acontecimentos e, ao final de um ciclo de três anos, um DÉCLASSÉ, um escroque, um violador, um aventureiro da pior espécie, nas palavras irônicas de Marx, se apresentou, não como um acidente ou milagre divino a descer a terra como “um raio em dia de céu azul”, mas como o próprio “deus salvador”, acima de todos os interesses, para amparar com a intercessão de 500 mil anjos nas alturas da burocracia estatal, assegurar a sinecura aos vagabundos, a cobrança de impostos aos camponeses, a liquidez hipotecária ao “lumpesinato financeiro”. O chefe da Sociedade Dez de Dezembro não deixou de abençoar as guerras e salsichas para o ávido exército nacional, o bastião da cidadania francesa, dos “droits de l‟homme” que leva à frente em suas campanhas escrito em sua flag: libertè, fraternitè e egalitè dos industriais, dos grandes comerciantes, da burguesia agrária.  O dieu “Anão” não desamparou nem mesmo seus concorrentes reais, aproveitando artilharia pesada contra seus castelos, abençoou as duas casas monárquicas que por saeculum et saeculum usaram suas bandeiras desbotadas da flor-de-lis e passaram a usar o colorido azul, vermelho e branco da Marselhesa. “Marchons! Marchons!” porque nenhum cidadão naqueles 20 anos dourados de Bonaparte puderam ficar de fora da contribuição à Bolsa francesa. Os banqueiros, financistas foram eternamente gratos pelo adjutório napoleônico como directeur général do État francês. É verdade que “o manto imperial sobre os ombros de Luís Bonaparte „ruiu‟ do topo da Coluna Vendôme” tornando-se realidade prevista por Marx, deixando para trás tanto a monarquia como o mito do “pai” e protetor dos camponeses. Mas, restou a herança política para burguesia poder usar universalmente, tanto em forma como em conteúdo: parlamentarismo e Bonapartismo como irmãos siameses da democracia burguesa.  



A partir daquele período a frase se igualou ao conteúdo: no caso, Bonarpartismo é sinônimo de NECESSIDADE das frações burguesas que, sendo substituídas excepcionalmente, sempre que o condomínio PARLAMENTO-, sua forma de governo por excelência, não consiga resolver diretamente seus interesses conflitantes, ou quando outras classes ameaçarem a sua hegemonia. Ela, burguesia deve transferir seu poder político direto, para outrem, em nome de assegurar seu poder econômico.  



Que fique claro, Marx, assenta sua análise no conflito fundante entre a burguesia – com suas frações – contra o proletariado, contudo, leva em consideração que outras classes podem também dirigir momentaneamente o processo das lutas. Portanto, em última instância, só as classes mais elementares da época moderna, o capital e o trabalho, que convivem em permanente disputa, poderão superar os antagonismos de classe. Para  pequena-burguesia e o campesinato, como classes intermediárias,  não resta outro caminho. Para alcançar a vitória definitiva precisa se aliar a uma daquelas, ou subsumido ao capital, ou em aliança com proletariado defender a evolução socialista. 

                         

                                              

PARTE II





1)  O método de periodização: cada etapa é periodizada de acordo com a presença das classes e de seus representantes no cenário da disputa política, militar e ideológica (propaganda nos jornais). Marx foge da concepção formal da história positivista muito em voga na sua época. Não é o simples politicismo liberal, que pensa a política pela política como mera sucessão de disputas legais, institucionais feitas por políticos profissionais ou personagens em si; que determinam os rumos dos acontecimentos, mas a correlação de força entre as classes. Percebe-se nitidamente esta periodização quando Marx compara as duas revoluções, a de 1789 com a Revolução de 1848. Ele textualmente afirmava, cada fase da tomada de poder pela burguesia a partir de 1789, era marcada pelas classes avançadas, uma a uma era empurrada para frente, fazendo avançar a revolução, substituindo aquelas que se constituíam como obstáculos revolucionários, ou não conseguia cumprir este papel; o inverso ocorreu na Revolução de 1848, pois suas fases caracterizaram-se pelo recuo permanente na medida que as classes ou frações de classe mais avançadas eram apunhaladas pelas costas para ceder lugar às mais atrasadas, resultando em vitória, em vitória, da contra revolução. O Partido da Ordem derrota o Partido Nacional, os republicanos puros e nacionalistas. Da vitória sobre estes à derrota para os partidários de Bonaparte e, estes reles serviçais do grande malandro, levam em uma liteira o AUTOCRATA para assentá-lo no trono em 1852.   



São as ofensivas e defensivas que constituíam cada etapa do movimento. Não era uma mera sucessão de fatos políticos, mas a luta concreta que determinava as fases do período revolucionário; 

Aqui o fundamental é a TOTALIDADE: metodologicamente, Marx inclui todos os elementos da realidade analisada: econômicos, políticos, militares e ideológicos para apresentar a realidade concreta. Ele não se atém apenas a um elemento, o econômico, por exemplo. Marx jamais se prendeu ao economicismo para fazer suas análises, ele sempre se valeu desse elemento como fundante, um ponto de partida ou chegada, porém sempre combinado com a totalidade do fenômeno em análise. 

 



 

2)  Por extensão disto, a análise marxiana nega o determinismo econômico, preservando a autonomia relativa de cada esfera dessa totalidade: um exemplo disto é a fase em que burguesia financeira, industrial, agrária e comercial se alheiam dos seus representantes no Parlamento para preferir o Napoleãozinho, e com isto, manter seu poder econômico em detrimento de perder o poder político direto. Luís Bonaparte, um desclassificado, sem vínculos orgânicos com nenhuma das classes, vai ao final das contas governar em nome do capital financeiro.  Metodologicamente quer dizer que nem sempre a política coincide com a economia, ou de outra forma, os fatos econômicos imediatos nem sempre espelham imediatamente a política. É um processo dialético em que as esferas internas têm lógicas, muitas vezes, autônomas, passando por mediações concretas diferentes, numa espécie de “curto-circuito”, onde uma nega a outra, constituindo uma nova totalidade.  Nosso caso emblemático é o próprio Lula ou Léon Blum na França dos anos 1930 com a Frente Popular. Ambos romperam com sua origem econômica para representar o projeto burguês. Embora Lula tenha nascido proletário, assim como o Partido dos trabalhadores, tornaram-se representantes de outra classe. O Próprio Marx e Engels são originários da burguesia, mas seu vínculo orgânico desde a juventude foi com o proletariado; 



 

3)  Marx rompe com o formalismo político liberal abstrato de Montesquieu. Este em seu livro “Espírito das Leis” defende a divisão dos poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário.  Para Marx isto não passa de formalismo, pois, desconsidera a luta de interesses entre as classes. O que de fato determina os distintos regimes políticos (monarquia, republicano fascista, parlamentarista, presidencialista...) não é a decisão formal dos cidadãos, ou legisladores, através de leis formais, mas, a resultante dos conflitos internos entre as classes para chegar ao PODER.  O politicismo liberal lança em seus debates apologéticos uma grande besteira: o equilíbrio entre os três poderes. Isto é uma quimera, pois sempre há uma assimetria entre eles, sempre um poder é mais forte do que o outro. Durante a democracia parlamentar, a Assembleia legislativa liderada pelo Partido da Ordem exerceu o poder sobre o Executivo. Com a mudança das correlações de força, o Executivo, apoiado pela burguesia de fora do Parlamento, viu cair no seu colo o PODER e fechar a assembleia de um dia para o outro (o 2 de dezembro de 1851). 

 



4)  a presença e liderança das diversas classes nas lutas, caso de junho de 

1848 ou junho de 1849 em que a pequena-burguesia liderou aqueles 

levantes, e depois, foi derrotada pela aliança burguesa.  



 

5)  Na questão do campesinato apresentada no livro, Marx destaca mais um elemento metodológico: a classe em si e a classe para si. O campesinato em função do seu modo de produção, disperso em unidades produtivas, subsumidas ao grande capital, existe enquanto classe em si, porém essas próprias condições obliteram uma tomada de consciência de pertencimento a uma classe, seu mundo é individual, sua crença é metafísica em um deus, um santo, ou um messias. Ela só entra em luta mediada com outras classes.  Foi contando com o mito do tio que Luís Bonaparte contou seus sete milhões de votos: o campesinato acreditou que o Napoleãozinho iria repetir as ações do Napoleãozão, não só doando terras, mas perdoando suas dívidas. Marx diz que o campesinato é como um “saco de batatas”, seu conteúdo se movimenta de acordo com a largura e cumprimento do saco, se o saco estiver fechado, amarrado, as batatas não se esparramam, ficam presas à unidade dada pelo saco, sem independência de classe.    Até sua grande glória do campesinato em participar do exército francês, ser cidadão do mundo, espalhar a revolução por toda Europa, foi solapada pelo Salteador. Em lugar de convocar os camponeses, o chief executive passou a alistar arrivistas, ladrões, vigaristas pertencentes ao lumpesinato, membros da Sociedade 10 de Dezembro; 



 

6)  A queda do mito Napoleônico: Marx lança, através de uma frase, uma ilação que depois se confirmará em 1869, quando da queda do Segundo Império. A frase é: “O culto do Manto Sagrado de Treves – uma espécie de relíquia sagrada para os católicos reacionários-, ele repete em Paris sob a forma do culto do manto imperial de Napoleão. Mas, quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna Vendôme.”. Aqui Marx quis dizer que o Napoleãozinho ao assumir o poder terá que necessariamente governar para a burguesia, tendo à frente a aristocracia financeira, a qual, entre outras coisas, só pode existir às expensas do endividamento do Estado, que vive das expensas de toda a sociedade francesa, particularmente do proletariado e do campesinato com seus impostos e hipotecas a pagar.  Esta leitura só foi possível a Marx graças ao domínio do método que ele juntamente com Engels, elaboraram.   Conclusão: só resta ao campesinato a aliança com o proletariado. A foice e o martelo!  

 

7)  O BONARBATISMO marxiano não parte do pressuposto do equilíbrio entre as duas classes fundamentais na disputa pelo Estado. O governo bonapartista é na verdade a incapacidade da burguesia em manter esse “equilíbrio”. Após maio de 1850, ficou claro para a burguesia de dentro do Parlamento, que não só não conseguiria chegar a um acordo entre a forma de governo, monarquia, república ou ditadura de Bonaparte, mas a própria inviabilidade do seu domínio direto por meio da República Parlamentar. Sua existência implicaria no sufrágio universal e o retorno para dentro do parlamento de representantes do proletariado e da pequena burguesia. Isto a colocou em completa contradição com República: manter-se viva era a mesma coisa de ter sobre sua cabeça a espada de Dâmocles, ainda que invisível, sob a forma de um eterno fantasma vermelho. A burguesia de fora do Parlamento tinha outra saída: matar a Assembleia para viver um executivo hipertrofiado, capaz de defender o interesse econômico burguês. Esta situação não poderia ficar indefinida, como não ficou. Galvanizando as disputas internas entre as frações parlamentares, acirrando contra ela as tentativas de querer controlar o Exército; jogava barganhando cinicamente dinheiro para seus projetos junto à “sociedade secreta 10 de Dezembro”, desmoralizando o parlamento que se viu obrigado fazer um acordo para compensar a diminuição da lista de votantes em três milhões; ou mesmo quando o vigarista desafiava esse mesmo “condomínio” agindo às claras, fraudando a loteria. O apetite de Luís Bonaparte aguçava cada vez mais e os próprios capitalistas, práticos por natureza, não se preocupavam com querelas morais denunciada por um parlamento enfraquecido. Já de algum tempo sua caminhada da Avenue des ChampsÉliysées até Versalhes estava pavimentada com “limas douradas” fornecidas pela burguesia fora do Parlamento. 

 

    8)  A sustentação (base material e política) do Bonapartismo: campesinato, lumpesinato e uma grande burocracia estatal autônoma. Meio milhão de parasitas e mais meio milhão no exército, perante uma população de 36 milhões de franceses, garantia o funcionamento do governo de Luís Bonaparte. A centralização do Estado, iniciada desde os tempos do absolutismo, com um Estado forte, continuou sendo uma  condição sene qua non para submeter a massa de trabalhadores e camponeses. Com esta experiência, a burguesia aprendeu que não é necessário estar na à frente da administração política, ela pode contar uma burocracia, com políticos profissionais, terceirizando o cuidar dos seus negócios no parlamento. São os políticos profissionais, uma espécie de staff administrativo, assessorado por milhões de funcionário, os quais Weber denominava de intelligentsia. 



Jomar Souza, março de 201

BRASIL, UM PAÍS SOB SUSPEIÇÃO - Perguntero


     Segundo o secretário de Defesa Agropecuária, Luis Rangel, em entrevista ao G1, o Ministério da Agricultura planeja fazer rodízio de fiscais nos frigoríficos com objetivo de evitar corrupção.
     Será que, para o Ministério, todos os fiscais estariam sob suspeição? Se são suspeitos não deveriam ser investigados pelo próprio Ministério e pelo Ministério Público? Será que seus superiores têm acompanhado com o rigor devido seus subordinados? Ou será que o Ministério joga na mesma vala todos os funcionários uma vez que não tem controle sobre tais atividades? Se  a corrupção é generalizada, qual a função do rodízio?
     Caso a medida do Ministério seja eficiente, seria o caso de fazer-se também rodízio em outros órgãos, em outros Ministérios, no Legislativo e no Judiciário, áreas públicas e privadas e na própria sociedade civil, dentro do papel que lhe cabe? Será que o país todo funcionaria melhor sob o método do rodízio?

domingo, 19 de março de 2017

O CURUPIRA PAULISTANO


Saindo da mais Augusta dessas movimentadas ruas, pela Caio Prado, para pegar a Caneca, rua desse nosso frei mártir, deparei-me com coisa sui generis e deveras espantosa: um jovem curupira no meio do asfalto. Com o semáforo que se fechava, ele, habilmente, veio marchando ritmicamente para a calçada com os dois pés voltados para suas costas, dando-se comigo no meio da passagem e estendendo-me tranquilamente a mão espalmada. Sem pestanejar, dei-lhe uns trocados que me sobraram do almoço e continuei rua acima sem digerir bem o fascínio.

Depois de umas leituras literárias e um café no Gioia, voltei, ladeira abaixo, em direção ao centro, observando o movimento incessante de nossa cidade. De repente, pouco não foi meu espanto, vi imediatamente a minha frente, caminhando com naturalidade, o rapaz curupira, que agora já não trazia os pés ao inverso, mas apontando o caminho a sua frente, como os demais pedestres que nos acompanhavam já próximos ao Estadão.

Com intuito de dizer-lhe algumas coisas que me vinham à boca, aproximei-me dele, mas o meu Curupira, liso como quiabo ao fogo, escorregou por uma escadaria que dava para a Nove de Julho e desapareceu da minha frente como um fantasma no meio dessa selva de pedras.

De pronto, desatei o nó de meu fluxo de consciência e o Fidel que trago para essas ocasiões subiu no caixote e pôs-se a discursar sobre o mundo e o homem. Assim foi que, quando dei comigo, meus pés estavam parados diante da portaria de meu prédio, sem que me desse conta do vários minutos que se passaram e do caminho que os consumiu.

Em casa, descalço e repousado no sofá, parecia ver ainda os pés de meu Curupira marcando os caminhos ao revés. No entanto, não sei o porquê, me soou a voz do Chómpiras do Bolaños com sua repetida fala, em reposta a alguém que reagia a algum impropério seu:

- Toma pelo lado amável.

Assim o fiz. A tal ponto que me lembrei de que, na verdade, o rapaz curupira nada me pedira e nada mais fez que me estender a mão no meio do caminho, como fazem tantos outros por essas ruas devassáveis. Depois, talvez não fosse propriamente um pedinte e, sim, um artista, com tamanha capacidade de contorcionismo; e, mesmo que outra coisa fosse, o ilusionismo com que entreteve os meus olhos, tirava-lhe qualquer coisa que lhe imputasse farsa e logro.

Depois, nosso Curupira recriava a cultura, trazendo o folclore das matas para a realidade de nossas ruas tumultuadas. Ao fim, acabei por concluir que lhe paguei bem pelo serviço, mesmo lhe dando pouco, e quem sabe não receba em breve uma boa nota pública como fomento cultural e até mesmo um prêmio de reconhecimento por representar a nossa arte e a cultura nacional.
 Elói Alves

sexta-feira, 17 de março de 2017

A CARNE É FRACA, EUFEMISMO DA PF? - Perguntero


Por que a carne é "fraca" e não PODRE? Seria um eufemismo da Polícia Federal? Será, então, que PODRES são os donos dessas empresas sujas e as autoridades públicas envolvidas na falta de fiscalização e recebimento de propina? Qual a punição aos partidos cujas campanhas foram financiadas pelo mau cheiro durante as eleições?

quarta-feira, 1 de março de 2017

O CAMPEÃO BLOCO DO MIJÃO


O Bloco campeão do carnaval deste ano, no centro de São Paulo, é, disparadamente, o Bloco do Mijão. A prova fática de seu desempenho está no ar, já no início da tarde da quarta-feira de cinzas, mesmo em locais restritos como a área dos caixas do Banco do Brasil da Rua Xavier de Toledo, agência de banco público cujas portas já foram quebras e requebras por vândalos, ostentam sua passagem, ou melhor, seu cheiro, disputando altivamente os ares citadinos com os pobres produtos de limpeza, usados para retirá-los, levantando-se entre as narinas inquietas dos clientes.

Em ruas como a 24 de Maio percebe-se, entre a multidão de transeuntes, que o Bloco desfilou por essas paragens com longa energia, apesar das vassourinhas dos funcionários da Prefeitura mostrarem um chão aparentemente limpo. Como estive em São Paulo durantes esses dias, naturalmente já havia observado marcas indeléveis dos excessos da folia, mas nada como ser convencido pelo próprio cheiro da matéria bruta que se dispersa, principalmente no day after, quando as fantasias despedaçadas já não luzem mais o mesmo brilho e a cidade busca, ainda confusa, respirar seu ar rotineiro.

O Bloco do Mijão lembrou-me uma outra crônica que escrevi tempo atrás, Odores da Cidade, mas no caso do Mijão, a diversidade dos cheiros habitual é nula, pois não traz o grito democrático que aguça todos os sentidos. O Mijão, além de sua largueza, que se dispersa por todos cantos da cidade, não adota o lema da privacidade dos banheiros químicos, distribuídos por diversas partes. Talvez, no próximo desfile, incorpore até o grito contra o desperdício do dinheiro público usado para contratá-los, uma vez que não se vai mesmo usá-los. Aliás, seu grito principal na folia deve ser o da publicidade ampla e da transparência irrestrita, de quem não tem o que mostrar, e de optarem por um cheiro único, que é mais evidente.

Certamente, como imponte campeão, o Bloco do Mijão voltará no próximo fim de semana, se é que houve alguma pausa para recarregar as baterias, ou os tanques, sempre pautados pela alegria imensurável de um compartilhável cheiro só, porque, como disse o mestríssimo João Adolfo Hansen, lecionando Vieira, qual o critério de fedor onde todo mundo fede junto?
Elói Alves

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