segunda-feira, 18 de junho de 2012

PÃES E TEMPOS

No quintal do velho padeiro jaz sua velha bicicleta
Ela aposentou-se com ele, ou ainda antes...
Na verdade, fizeram horas extras, o quanto puderam
Ele senta-se adiante dela, olhando, vago, a rua

O moço traz agora o pão, montado à motocicleta
É mais ligeiro que o velho e há menos pães à garupa
Mas não assobia nem cantarola e o pão esfria-se depressa
E também não tem pão de milho

Minha mãe não me deixava acordar sem o pão, e dizia:
-Faz tempão que tem pão_ sempre ao pé da manhã
E hoje tenho pizza adormecida

Trago o paladar estranho e acidez à boca
Esquece-me a cabeça, vagando em outros tempos...
O relógio de mamãe fazia um tic tac mais sonoro
O computador dá-me as horas tristemente, enfadonho...
E minha voz dilui-se em dizeres que não reconheço

Quero pão-de-leite com com a maciez de outrora
Com assobio e canto que adentrem a janela
E quero as sensações sem a estranheza de mim mesmo
E que seja eu do outro lado do espelho...
Não quero o cinza das tardes, mas o azul de antigamente
Elói Alves
do livro:


 Leia o primeiro capítulo de As pílulas do Santo Cristo romance de minha autoria cujo lançamento será dia 27/11, no Restaurante Rose Velt, pça Roosevelt, 124, das 19:00 às 21:30 h.:
http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/10/as-pilulas-do-santo-cristo-1-capitulo.html
Abaixo, pode-se ler também o prefácio feito pelo escritor e mestre em Literautra Comparada pela FFLCH-USP Edu Moreira: http://realcomarte.blogspot.com.br/2012/11/prefacio-de-as-pilulas-do-santo-cristo.html

4 comentários:

  1. Tão confortável a leitura de seus versos que sinto-me em bela carruagem a percorrer neste poema! Sua capacidade de narrar nos faz viajar em cada detalhe. Parabéns... mais uma vez.
    De minha experiência pessoal revivi a mercearia, o pão comprado a caderneta, chamado filão ou bengala. E a bendita mão de minha mãe o dividia por 6, em fatias milimetricamente idênticas. Eu levantava até mais cedo, descobria o guardanapo que o abrigava e olhava, olhava. Não conseguia vantagem, eles eram todos iguais!
    Um grande abraço e muito grata por me oferecer esse deleite.

    ResponderExcluir
  2. Oi, Ira, obrigado, querida! Sabe que esse poema e me faz lembrar um monte de coisas, das vilas... das idas à padaria...também acho muito simbólico, do pão, do trigo...das cilvilzações antigas com o dilema dos viveres. Bijos gratos, amiga!

    ResponderExcluir
  3. Poxa Eloi...
    Que cenas descortinas em minha memória cansada. Memória que criei através de outras leituras e observações, mas que me me pertencem.
    A cena da Ira me fez lembrar a casa de uma pessoa querida, que me ajudou muito na infância, a iemã Socorro, nós também mediamos os pães para ver quem ia ganhar a maior parte, mas eramde fato cortados iguais!
    O teu personagem sentado em frente a bicicleta me fez lembrar algo que lia nos primeiros anos da escola. Deve ser ele o padeiro de Rubem Braga. Que me diz?
    Elisabeth Lorena Alves

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, que lindas suas recordações, Elisabeth Lorena Alves! Este poema evoca mesmo outros tempo, a saudade é muito forte nele, os tempos estão bem opostos ali; nada como o padeiro, e velho; pão e tempo acho que acaba sendo uma síntese da vida dos que sofrem mais, Beth, (não sei se é essa, mas há uma crônica onde o padeiro deixava o pão e dizia: " não é ninguém é o padeiro", linda também! beijos gratos!

      Excluir

Postagens populares (letrófilo 2 anos 22/6)