domingo, 28 de outubro de 2012

AS PÍLULAS DO SANTO CRISTO (2º capítulo)


As pílulas do santo Cristo, romance de Elói Alves lançado em novembro de 2012




Editora Linear B



O advento das pílulas (2º capítulo)

     No restaurante, enquanto almoçávamos, fui indagando-os sobre as seqüências da história inacreditável de como os três futuros médicos, jovens tão lúcidos e de raciocínio tão brilhante, com tão bela e promissora carreira acadêmica entraram naquela confusão, indo parar na delegacia, sendo escrachados pelos jornais e pela opinião pública. Ao longo da oitiva da narrativa que me faziam, o interesse puramente advocatício a partir de que eu pretendia começar a minha defesa processual foi esvaindo-se e dando lugar, aos poucos, a uma curiosidade que passou a me absorver inteiramente, conduzindo toda a minha atenção para um olhar íntimo e detalhista dos vazios humanos e dos meandros e encruzilhadas em que se veem muitas vezes os homens e do lugar que encontram entre estes o racional e o adventício.
     A questão fora a seguinte:

     Os três tinham chegado à difícil situação de gastar seus últimos recursos sem ter mais de onde tirar outros, sequer para as demandas básicas, que não lhes pediam pouco. O curso na faculdade era integral, os livros eram muito caros e o que os pais lhes enviavam do interior para ajudar nas despesas não era suficiente para quase nada.
      Como as dívidas acumulavam-se indefinidamente, foram cortando onde as sobras ainda permitiam, que era praticamente em lugar nenhum, e, assim, logo passaram a tirar do essencial. No fim de um tempo, deixaram de pagar o aluguel do apartamento que dividiam no centro da cidade. Depois, o condomínio entrou na mesma lista de débitos. O próximo passo, que era inevitável, era também o último: estavam na iminência de ser despejados. 
     A solução não parecia simples. Não podiam trabalhar o tempo suficiente para ganhar uma quantia que resolvesse o problema, que aliás ia sempre aumentando. Depois, ainda assim ganhariam apenas como estagiários, que era o mesmo que nada, na situação em que se encontravam. Não demorou muito e o condomínio os intimou à justiça, com ultimato para que deixassem o apartamento, por vontade própria ou por ordem judicial e por força da polícia.
Cogitaram ainda sobre algumas possibilidades: Empréstimos financeiros, abandono temporário do curso em função de emprego, um apenas trabalhasse enquanto os outros dois se formariam. Pululavam as hipóteses, contudo, não escorria delas um simples acordo.
     Depois de um momento, Pedro, que era o mais atirado, propôs a ideia de se por em prática algo que diziam às vezes por brincadeira: distribuir as pílulas de Cristo.
     -Como será isso?- perguntou Teodoro.
     -Muito simples- disse Pedro. Vamos à praça com nossas roupas brancas e lá oferecemos chocolates para as pessoas, apenas trocando o nome para pílulas do Santo Cristo.
     -Mas que chocolates?- insistiu Teodoro, sem entender o negócio.
     -Convém que seja de um tipo diferente- afirmou Silvano, interessando-se. Podemos fazer em casa, com marca registrada.
     -Sim- continuou Pedro, tomando a frente. Totalmente típico e sui generis, desde o sabor à própria forma.
     -E vocês, por acaso, entendem de coisas da bíblia?- insistiu ainda Teodoro.
     -Ora, Teodoro!- fez Pedro, aumentando a voz. Atualmente não se usa mais a bíblia a toda hora. Mesmo nas religiões, isso já é antiquado. Somente o presidente do Paraguai ainda jura com a mão sobre a bíblia.
     -E o que sai foi cassado e o que entra é golpista- emendou Silvano, rindo.
     A coisa deu mais certo do que esperavam. Já de início houve grande sucesso e eles reuniram muitos adeptos, que simpatizavam com suas ideias, logo à primeira vista. Vestidos inteiramente de branco, com avental pelos joelhos, seguravam uma bandeja com pequenos tabletes redondos de chocolate e anunciavam em tom moderado e firme:
     -Conheçam as pílulas do Santo Cristo, são o alívio pronto para todos os males!
     Os desempregados e ociosos que lotavam a praça vieram logo ver a novidade, formando-se uma roda que Teodoro, com típica vocação adjutória, ia organizando ao entorno deles. Não havia doutrina nem liturgia alguma, nem o povo as requeria nem indagava por elas. Apenas anunciava-se a nova medicina milagrosa das pílulas de Cristo e muitos dentre a multidão incessante de transeuntes, ansiosos por coisas novas, vinham ao encontro dela.
     Os doentes também pouco tardaram, juntando-se rapidamente aos primeiros; e, desse modo, o número ia sempre crescendo. Assim, os inúmeros ajuntadores de gente que lotavam a praça acharam agora uma terrível concorrência. O homem da cobra, o que se queima no fogo, o que mastiga pregos e cospe pedras, o que esconde a bolinha entre os dedos no jogo das tampinhas, o que vende raízes, o que advinha os números de documento de identidade com olhos vendados e até os outros religiosos e as prostitutas começaram a perder clientes.
     E como alguns dos novos adeptos anunciavam publicamente que tinham conseguido dinheiro, após a sagrada ingestão das pílulas, os roubadores de bolsas e levantadores de carteiras, os jogadores de cartas, os vendedores de sonhos e os que emitiam certidão de idoneidade e antecedentes criminais, os que repassavam entorpecentes e alucinógenos, os estelionatários e até alguns políticos vieram conhecer a nova seita. 
     Na manhã do terceiro dia, Silvano veio até Pedro, que levantara-se acima dos outros na liderança, e lhe pediu permissão para receber as doações em bens, porque o povo, comovido e agradecido, insistia nisso e nem sempre se trazia dinheiro em espécie. Pedro afirmou logo que a Sublime Medicina não era ingrata nem soberba, que Silvano recolhesse os bens que viessem de bom coração e de modo voluntário. Mas o advertiu severamente em seguida:
     -Só não receba relógios, porque não há encrenca maior na Praça da Sé de que se por a mão em relógios.



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4 comentários:

  1. Poxa Eloi!
    Mexe com nosso imaginário!
    Acabou!

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    1. Grato, Elisabeth, espero que que mantenha a impressão até fim.

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  2. "Santo Cristo" pare de nos atentar...cadê o livro?? rs
    Ansiosíssima!

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    1. Grato pela leitura, espero que goste do livro todo, amiga!

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